A pizza de 10 mil dólares: o que eu aprendi com o Bitcoin

Por Henrique Mascarenhas
Co-founder da RM Sistemas, CTO no Cryptolands.io e Investidor anjo

A primeira vez que ouvi falar do Bitcoin (não me lembro exatamente quando) a minha reação foi certamente muito parecida com a da enorme maioria das pessoas: desconfiança e até desprezo. Na época (devia ser em 2011 ou 2012) o BTC (a “moeda” do Bitcoin) valia centavos e era coisa de nerds, geeks, cipherpunks e outros aficionados. A notícia que me chamara a atenção era que o fundador da “empresa” (um certo japonês misterioso) havia desaparecido sem deixar rastro. Não poderia haver nada mais suspeito e parecido com fraude do que isto. Acabei abandonando qualquer leitura sobre o assunto pois aquilo, com certeza, era perda de tempo. Além do mais, eu estava trabalhando num grande projeto de M&A (Mergers & Acquisitions) e estava com pouco tempo pra desperdiçar com leituras sobre coisas “que não tinham a menor chance de prosperar”. Esqueci o assunto.

Henrique Mascarenhas é co-founder da RM Sistemas e do portal Cryptolands.io. (/Arquivo Pessoal)

Continuei o meu trabalho como advisor até que em 2014 resolvi “dar um break” e decidi voltar a fazer aquilo que mais gosto: desenvolver software. Foi quando percebi que eu era um verdadeiro dinossauro. Formei-me em Ciência da Computação em 1988, quando não havia Windows, Internet, Programação Orientada a Objetos. Fiquei muito tempo “afastado” da programação e percebi que eu já não sabia mais nada. Todas as técnicas que eu conhecia já há muito não eram sequer utilizadas. Então resolvi “me reinventar”. Desliguei-me da boutique de M&A da qual era sócio desde 2008 e fui morar nos EUA pra reaprender a desenvolver software. A ideia era tentar aprender as novas técnicas para que, se aparecesse alguma ideia pra empreender, eu estaria preparado para, eu mesmo, implementá-la. Voltei para o banco da escola e fui estudar as novas tecnologias. No período em que morei na Flórida com a família, tive contato com tudo o que estava acontecendo de novo: impressão 3D, Internet das Coisas, Machine Learning, Pattern Recognition, Virtual/Augmented Reality, Drones etc, etc…. até que me deparei novamente com o tal do Bitcoin.

Desta vez foi diferente, eu tinha mais tempo. Eu utilizava intensamente o site Khan Academy para aprender sobre vários assuntos. De computação à matemática, passando por história, biologia e economia, tudo estava lá, disponível gratuitamente pra quem quisesse aprender. Qual não foi a minha surpresa quando vi que um dos cursos, da cadeira de economia, era sobre o Bitcoin. Desta vez resolvi investigar o assunto com o devido respeito, pois se estava no Khan Academy, talvez não fosse aquilo que eu pensava que era. Comecei a estudar com alguma profundidade e rapidamente me empolguei com o brilhantismo da solução do tal japonês que, aliás, até hoje ninguém sabe por onde anda ou mesmo se existe. Quanto mais eu me aprofundava, mais admirava o invento. Gosto de me referir ao Bitcoin como o maior feito da ciência da computação desde a internet.

Daí pra frente, virei quase um Bitcoin fanático. Comprei alguns BTCs no intuito de entender o funcionamento da coisa. Se tivesse comprado como investimento, teria comprado muito mais, pois em 2015 era bem barato comparado aos valores de hoje (janeiro de 2019). Passei a tentar utilizar o BTC de qualquer jeito, mas ninguém sabia o que era aquilo ainda. Cheguei a distribuir BTC para várias pessoas. Transferia simplesmente pelo prazer de ter alguém pra enviar o “dinheiro”. Transferi para o meu pai, meus irmãos, sobrinhos, qualquer um que mostrasse o menor interesse naquela conversa maluca de dinheiro eletrônico eu já sacava logo a minha carteira e transferia umas mixarias… Até o meu professor de tênis levou uns também (o caso dele é ótimo e dá outro artigo). A reação de cada um que eu abordava era diferente, mas a enorme maioria não acreditava e não dava a menor bola para aquilo. Quase todos perderam ou não sabem mais onde estão aqueles BTCs. Alguns amigos vieram me alertar: não mexe com isto Henrique, isto é pilantragem, pirâmide, coisa de malandro, traficante. Eu tentava ir pro lado técnico da coisa, mas as resistências eram (e são até hoje) muito grandes. Eu entendo esta reação até porque a minha foi exatamente igual.

Certa vez, enquanto morávamos na Florida, um grande amigo foi me visitar e apaixonou-se perdidamente por Alexa, a minha caixa de música da Amazon que havia acabado de ser lançada, uma verdadeira novidade. Ele me pediu que comprasse uma e enviasse pelo primeiro portador. Quando recebeu a novidade em casa, me ligou e perguntou: “como faço para lhe pagar?”. Sabendo que ele era um dos “resistentes” (não a inovações, que fique bem claro, mas ao Bitcoin) a minha resposta foi: “só aceitamos BTC”. Ele teve que passar pelo processo de comprar BTC em uma exchange e pôde ver que o processo não é tão complicado como as pessoas dizem. Para se comprar BTC’s, basta fazer uma conta em alguma exchange de Bitcoin (existem inúmeras no Brasil), enviar uma foto do documento e pronto. É simples assim…

“Cheguei a ter certeza que, dali a dois ou três anos, todos os sites estariam aceitando BTC”, disse Mascarenhas. (/Pexels)

Lá em Jacksonville, onde morávamos, tínhamos o hábito de pedir pizza aos domingos, quando a nossa casa vivia cheia de amigos. A minha alegria foi enorme no dia em que eu entrei no site da pizzaria e quando fui pagar, lá estava uma nova opção de pagamento: Visa, Mastercard, Amex e…. bingo! Bitcoin. Eu saí gritando pela casa: “vou ter o que fazer com meus BTC’s”. Naquele momento, imaginei um mundo em que todos os sites passariam a aceitar BTC como moeda de pagamento. Cheguei a ter certeza que, dali a dois ou três anos, todos os sites estariam aceitando BTC. Como curiosidade, naquele dia eu gastei mais de 0.5 BTC para comprar uma simples pizza. Se soubesse que o BTC estaria valendo 40x mais em apenas dois anos depois daquele dia, jamais teria feito aquilo. Em dezembro de 2017, um BTC estava sendo negociado a 20 mil dólares, o que fazia com que a pizza que eu comprei com 0,5 BTC me custasse 10 mil dólares…

Desde aquela pizza, o Bitcoin se tornou algo prioritário pra mim e posso dizer que provocou uma enorme ruptura na minha vida profissional. Graças a ele, voltei a empreender uma startup cujo objetivo é mostrar para as pessoas que o Bitcoin pode sim ser usado para fazer o bem. O Bitcoin é tão revolucionário que tem o potencial de ameaçar fortemente duas das instituições mais poderosas do mundo: os governos e o sistema financeiro mundial. Se esta ameaça vai se concretizar, não sabemos. O futuro dirá.

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